quinta-feira, julho 31

Tinha resolvido seguir as estrelas. Há muito evitava desvios fortuitos para seguir o seu norte. Rumo ao que ia?, não se sabia. O que importa é que independente dos dias, sumia em direção aos pés da imensa montanha fria de verde intenso e mistérios noturnos. Tinha consigo apenas o barulho das sandálias surradas, que chutava as pequeninas pedras soltas ao chão, a sombra projeta pelo sol, que logo se esconderia por de trás da imensa massa verde, e as lembranças. No mais, tudo era vento no rosto, o som das asas dos pássaros batendo avidamente no vazio do ar e frases que escrevia na memória e que se esfumaçavam com o soprar das rapinas.

domingo, julho 13

antes de ver o vídeo, desligue o som ali, ao lado.


quero o verbo que tanto alivia?, quero as sílabas que sentenciam o que me angustia à morte. Essa estranha alegoria.

quinta-feira, julho 10

tinha uma vontade incontrolável
a de se ir.

tinha se convencido
era preciso se misturar ao vento
beber sereno e
suspirar o tempo

seguir lento
por caminhos que já não há

do desejo.

quarta-feira, julho 9

"Você vai me seguir aonde quer que eu vá
Você vai me servir, você vai se curvar
Você vai resistir, mas vai se acostumar
Você vai me agredir, você vai me adorar
Você vai me sorrir, você vai se enfeitar
E vem me seduzir
Me possuir, me infernizar
Você vai me trair, você vem me beijar
Você vai me cegar e eu vou consentir
Você vai conseguir enfim me apunhalar
Você vai me velar, chorar, vai me cobrir
e me ninar"

chico buarque

segunda-feira, julho 7

sexta-feira, junho 27

primeira noite: apagou a luz, deitou-se e continuou olhando em direção ao teto.

(ouvia apenas a chuva cair sobre a soleira da casa ainda vazia.
a água adubou o telhado por sete noites seguidas.)

oitava noite: viu - sem espanto - brotar do teto umedecido um pé-de-estrelas.



domingo, junho 22

Depois de três meses em silêncio, *Marcela sorriu. Que assim continue. É bom ver o sorriso de Marcela "escapulir" pela fresta do cantinho do rosto e tomar conta da sala, inundando tudo com um som ainda inédito aos meus ouvidos. É bom ver seu sorriso crescer, siga sorrindo pela vida.


*Marcela é um nome fictício para M.. Com cinco anos de idade, há dois, ela luta contra um tipo de câncer raro. Tive o prazer de conchê-la numa dessas tentativas de retomar a ordem natural das coisas.

domingo, junho 15

é a melhor de todas as definições:

"Saudade é ser, depois de ter." (G. Rosa)

a vida toda em uma só madrugada. fria madrugada.

pupilas dilatadas.
um deserto na boca.

o instante tinha cinco letras.

sexta-feira, junho 6

ela, ele e a filha da costureira

O dia estava belo, com pássaros cantantes, libélulas esfuziantes e um cheiro de mato verde de dar água na boca das vaquinhas leiteiras. Mas, por sob a mangueira, a garota (antes faceira), se desmanchava em lágrimas doces que, caídas ao pé da roseira, alimentava os botões vermelhos - símbolo do amor maior de seu amado pela filha, já moça, da costureira.

sábado, maio 3

Inviting silence

Já não tenho muito o que dizer não. o pouco que alardeava aqui dentro se calou, mas os disparos das inconstâncias ainda são meus. é por eles que me perco entre as letras e sons, e é me perdendo que me encontro e tento me esvaziar a cada dia mais, mesmo sabendo da quimera que é.

aos poucos que passaram por aqui, obrigado. aos que um dia ainda venham, desde já, um valeu. e curtam o som. eu vou por aí, assoviando uma canção, chutando uma pedrinha aqui, outra acolá.

um bai.

Catendê

composição: Jocafi - I.Tavares - Antônio Carlos

Meu catendê ... de lá de China
Luante, meu catendê

Meu catendê ... de lá de China
Luante, meu catendê

Varre a voz o vendaval
Perdido no céu de espanto
Meu barco fere a distância
No disparo da inconstância
Me encontrei sem me esperar
Quanto mais o tempo avança
Mais me perco neste mar
E no rumo do segredo
Caminhei todo o caminho

Maré brava maré mansa
Vou na trilha da esperança
Vou no passo da alvorada
Mar amor enamorada

De segredo e de procura
Fiz do medo o meu amigo
E de força sempre pura
O meu canto se encontrou
E no fim da jornada
Vi meu canto crescer
Há tanto escuro na estrada
Esperando o sol nascer
Vou cantar pela vida
O meu canto de amor
Há tanta dor escondida
Tanto canto sem cantor

Maré brava maré mansa
Vou na trilha da esperança
Vou no passo da alvorada
Mar amor enamorada

"a calma é o último suspiro da poesia", VM.


...

domingo, abril 27

Que Nem Manequim
(Mauricio Tapajós e Paulo César Pinheiro)

Ando falando sozinho
fingindo que é verdade
que te encontro mais tarde
Ando ouvindo calado este som do passado
e uma angustia me invade

(continua...)

segunda-feira, abril 14

Helena, Nazaré, Maria e Jade saem do trabalho com pressa, carregam pesadas ancas por calçadas quentes, atravessam ruas e gentes, sobem morros. Ligam a televisão, oito e meia. Último capítulo. O sofá é sujo, os gritos são altos, as paredes poucas e a vila, grande. O trabalho é trabalho, o mundo é assim. Crucifixos tortos, mandamentos decorados. Mas é o último capítulo e calam as crianças num tapa. Torcem. Gritam. Choram. Enfim, sorriem, emocionadas, corações leves. O final foi feliz. O resto, é ficção.

Último capítulo - um miniconto de Marcelo Spalding

e tinha que acender um cigarro, buscar oxigênio e esperar a noite passar. o dia traria histórias sempre iguais.