quinta-feira, agosto 6

"Baú de Ossos"

Quando chegávamos era hora do café na sala de jantar da Inhá Luíza. Café fresco, pelando, bem fraco e servido em xícaras grandes. Vinha forte e era adicionado, na hora, da água quente que a Rosa e a Deolinda despejavam das chaleiras de ferro que tinham que ficar segurando ao lado da mesa. Leite, não. Quando muito, queijo-de-minas para pecar e deixar amolecendo dentro do café fervente. Pão alemão fofo e macio, cheiroso, ao partir, como um trigal. E o cuscuz de fubá doce. Feito em metades das latas do queijo do reino furadas a prego e onde a mistura cozia em cima do vapor de uma panela. Já no jardim se sentia o cheiro do café, do pão, do fubá, do açúcar mulatinho.

Pedro Nava, Baú de Ossos, Rio, 1972.

cão que ladra na rua

a vida pesa tanto e a ciência é tão leve!
o que escolher?

segunda-feira, agosto 3

sexta-feira, julho 31

quarta-feira, julho 22

a vida é imenso caos. por isso creio em apenas duas saídas: um tiro na cabeça ou uma gargalhada sem pudores (uma espécie de síndrome do espelho invertido). saudades de ser palhaço.
e-mail:

"Cara, você também causou em mim este desejo de saber. Os encontros são ricos e a interlocução apaixonada. Somos assim: intensos, apaixonados e implacáveis na forma. Se seu texto comoveu e causou reação tão singular é porque você se colocou nele. Nietsche, Freud, Bataille e todos aqueles que ousaram pensar também com suas víceras incomodaram saudavelmente. Não há outra maneira. Vosmicê é um grande pensador e terá que se haver com os efeitos disso. E também quero ouvi-lo."

segunda-feira, julho 20

Coração em Desalinho
Composição: Mauro Diniz-Ratinho

Numa estrada dessa vida
Eu te conheci
Oh Flor!
Vinhas tão desiludida
Mal sucedida
Por um falso amor...

Dei afeto e carinho
Como retribuição
Procuraste um outro ninho
Em desalinho
Ficou o meu coração
Meu peito agora é só paixão
Meu peito agora é só paixão...

Tamanha desilusão
Me deste
Oh Flor!
Me enganei redondamente
Pensando em te fazer o bem
Eu me apaixonei
Foi meu mal...

Agora!
Uma enorme paixão me devora
Alegria partiu, foi embora
Não sei viver sem teu amor
Sozinho curto a minha dor...

Numa estrada!
Numa estrada dessa vida
Eu te conheci
Oh Flor!
Vinhas tão desiludida
Mal sucedida
Por um falso amor...

Dei afeto!
Dei afeto e carinho
Como retribuição
Procuraste um outro ninho
Em desalinho
Ficou o meu coração
Meu peito agora é só paixão
Meu peito agora é só paixão...

Tamanha desilusão
Me deste
Oh Flor!
Me enganei redondamente
Pensando em te fazer o bem
Eu me apaixonei
Foi meu mal...

Agora!
Uma enorme paixão me devora
Alegria partiu, foi embora
Não sei viver sem teu amor
Sozinho curto a minha dor
Sozinho curto a minha dor
Sozinho curto a minha dor...

sexta-feira, julho 17

Rafa, moleque de 8 anos, de sorriso fácil, resolveu nos deixar. Isso ainda está batendo aqui como uma elegia desesperada, como um lamento piedoso que bate, bate e bate, deixando-nos surdos, cegos e incrédulos. é difícil sim crer nesta entidade maior que uns chamam deus. como pode ter tantas almas na mão, tantas vidas em seu colo e ser tão frio, tão calculista e obstinado a amputar de nosso corpo a parte mais pura. hoje acordamos sem o Rafa, quis o Rafa mais uma vez, quis arrancar o Rafa que existe dentro do peito do pai que o Wanderson hoje é. mas é impossível, os filhos e os pais, como os amores de verdade, são para sempre.

em alguma parte do universo há um sorriso fácil como o do Rafa para deixar isso aqui menos dor. me dói escrevê-lo. escrever para ficar livre. tudo tão egoísta.

terça-feira, julho 14

Retrato


Ela: oi!

Ele: owlas (exclamações)

Ela: ta vivo?

Ele: sim. muito trabalho, mas estou bem. e o nosso cine semanal? vamos neste fim de semana.

Ela: nem comento. no fim de semana você não existe. é uma vaga lembrança... J

Ele: te amo.

sábado, julho 11

sei que definitivamente o raiar é ilusão.
mas eu tenho o direito de sentir o cheiro da terra molhada.

terça-feira, junho 30

Mar que serpenteia o Arpoardor
Banha-me,
Acalma-me a alma
Isso que me ladeia
Encanta-me com sua harpa
Mesmo este resto que ainda é dor
Rio meu, de margens tortas
Corredeiras
Feitas de pedras finas, lisas e faceiras
Perco-me em seus leitos
Peitos de meninas esculpidas em argila.
A benção de um Rio de Janeiro
São Sebastião.

sexta-feira, junho 12

já estava assim desde um tempo atrás.
agora resolvi olhar para ele.
estava cansado. e não sei pq.
sentia tudo pesado.
sem forças para seguir.
os sonhos estranhos pontuam a toada.
os cigarros trazem à noite escura
o branco de outras enluaradas.
o que não é bom. mas é o que alivia.

quarta-feira, junho 3

E o mundo ainda não aprendeu.

*"Dói internar um filho.

Às vezes não há outro jeito"


ontem, lendo uma reportagem de uma revista semanal que trazia entre outras fontes *Ferreira Gullar... me lembrei de Sorôco, do Guima. o tema da reportagem era como sempre o da moda: o sofrimento mental, que foi guindado às grandes rodas de discussões graças a um personagem da novela global. bem, como o tema veio à baila pouco nos interessa, afinal, a sociedade é movida por esses repentes midiáticos mesmo, mas o que nos toca aqui é olhar para a questão, e Ferreira o faz com a sensibilidade de quem sentiu o arfar da realidade dos sonhos sobre os ombros dos filhos.

ao meu ver o diálogo a respeito das questões psíquicas em nosso país ainda se arrastam, apesar de tudo isso que uns apontam como avanços dignos de nota e louvor. mas não. na prática a coisa funciona de uma outra forma. profissionais trocam o diálogo com os familiares por "jaules" e um abraço amigo por doses cavalares de Aldol. em Belo Horizonte, a clínica Casa Freud, que tinha a proposta mais honesta e digna sobre a qual já ouvi falar e pude ler sobre não foi à frente. conversando com o seu idealizador, ouvi que faltava apoio. bem, e é essa mesma sociedade, que nega apoio a projetos responsáveis, que vira o rosto para o diferente, que quer sentar para discutir a questão. não, melhor não. é melhor deixar a fala apenas para pessoas que, como Gullar, sentem ou sentiram o que é partilhar a ilusão das coisas com os seus entes queridos.


Foto: reprodução Epoca - Gullar posa
no apartamento em que mora sozinho,
em Copacabana. O filho Paulo vive há
cinco anos num sítio em Pernambuco.


Sorôco, sua mãe, sua filha
(Guimarães Rosa )

Aquele carro parara na linha de resguardo, desde a véspera, tinha vindo com o expresso do Rio, e estava lá, no desvio de dentro, na esplanada da estação. Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vistoso, todo novo. A gente reparando, notava as diferenças. Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos. A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao expresso daí de baixo, fazendo parte da composição. Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. O trem do sertão passava às 12h45m.

As muitas pessoas já estavam de ajuntamento, em beira do carro, para esperar. As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam, cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendo mais do que os outros a prática do acontecer das coisas. Sempre chegava mais povo – o movimento. Aquilo quase no fim da esplanada, do lado do curral de embarque de bois, antes da guarita do guarda-chaves, perto dos empilhados de lenha. Sorôco ia trazer as duas, conforme. A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele o parente nenhum. (continua).



quarta-feira, maio 27

domingo, maio 24

na verdade estar aqui e ser assim,
afeito ao que é amargo e às promessas possíveis
e ainda assim intangíveis de amor,
é simplesmente a vontade
de se estar à altura desse momento único,
recortado no tempo,
que chamam de vida.