segunda-feira, abril 26

ele, ela. em acordes e vinho tinto.
amor a decantar.
carinhos a luz de vela,
corpos nus a se tocar.
o rio calmo vem subindo
areia acolhe o mar.
dos poros o aroma,
a urgência de gozar.
o "tempoespaço" foi labirinto,
desculpa tola pra se reencontrar
motivo nobre para existir a vida
de pés alados, eterno sonhar.

sexta-feira, fevereiro 19

Na época em que me preparava para defender o projeto de final de curso, um documentário, fruto de 18 meses de trabalho árduo, leituras incessantes e descobertas saborosas. Em uma de minhas conversas com a orientadora, construímos o que seria a última questão que me tiraria o sono durante o restante da graduação: na atual sociedade, somos tomados por uma enxurrada de imagens, talvez não fosse a hora de olhar para todos esses signos com menos preconceito? E mais, não seria a hora de começarmos a pensar em como inserir mais imagens – com qualidade – nesse universo? Isso deu muito pano para manga e anotações para o dr. maluco.
alguns anos se passaram... e num é que trabalhando na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes 2010, não me deparei mais uma vez com a velha questão? E o que me consola, é que dessa vez o assunto pairou no discurso do homenageado do festival, o cineasta Karim Aïnouz - o cara rodou Madame Satã, O Céu de Suely, Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, entre tantos outros. Confira:


"...é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar..."
acho esses alguns dos mais belos e marcantes versos do nosso teatro. nem era nascido quando foi realizada a estreia do musical Liberdade, Liberdade... criação de Millôr Fernandes e de Flávio Rangel (só googlar), mas tive a oportunidade de ler o livro - quando tinha uns 12 para 13 anos de idade. a curiosidade nasceu por conta de uma foto em p&b do maior de todos, Paulo Autran, que ilustrava uma aspas da peça em um livro de literatura que nos remetia ao estilo literário do capítulo. De punho em riste, olhar fixo no futuro... aquela imagem nunca mais saiu da mente (ouço as vozes e seus ecos, vejo o brilho nos olhos do jovem da primeira fila), não menos pelo ímpeto revolucionário, que apresentava, mas pela necessidade da poesia como complemento para que se pudesse suportar aquele recorte do cotidiano. naquela época eu me via às voltas – graças ao meu irmão - com Vinícius de Morais, então não foi difícil compor a trilha sonora do início do primeiro ato da peça.

(Ainda com as luzes da platéia acesas, ouvem-se os
primeiros acordes do Hino da Proclamação da República.
1 Apaga-se a luz da platéia. Ao final da Introdução,
um acorde de violão, e Nara Leão canta, ainda
no escuro.)

NARA
Seja o nosso País triunfante,
Livre terra de livres irmãos...

CORO
Liberdade, liberdade,
Abre as asas sobre nós,
Das lutas, na tempestade,
Dá que ouçamos tua voz...
(Acende-se um refletor sobre Paulo Autran. Ele diz.)

PAULO
Sou apenas um homem de teatro. Sempre fui e sempre
serei um homem de teatro. Quem é capaz de dedicar
toda a vida à humanidade e à paixão existentes nestes
metros de tablado, esse é um homem de teatro.2
Nós achamos que é preciso cantar (Acordes da
Marcha da Quarta-feira de Cinzas3) – Agora, mais
que nunca, é preciso cantar. Por isso,
“Operário do canto, me apresento4
sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
minha alma limpa, a face descoberta,
aberto o peito, e – expresso documento –
a palavra conforme o pensamento.
Fui chamado a cantar e para tanto
há um mar de som no búzio de meu canto.
Trabalho à noite e sem revezamentos.
Se há mais quem cante, cantaremos juntos;
Sem se tornar com isso menos pura,
A voz sobe uma oitava na mistura.
Não canto onde não seja a boca livre,
Onde não haja ouvidos limpos e almas
afeitas a escutar sem preconceito.
Para enganar o tempo – ou distrair
criaturas já de si tão mal atentas,
não canto... Canto apenas quando dança,
nos olhos dos que me ouvem, a esperança”.


l. Trecho do Hino da Proclamação da República, de Leopoldo
Miguez e Osório Duque Estrada.
2. Baseado em textos de Louis Jouvet e de Jean Louis Barrault, do
livro Je Suis Homme de Théatre.
3. Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, de Vinícius de Morais e
Carlos Lyra.
4. Versos de Geir Campos, do poema Da Profissão do Poeta.

segunda-feira, dezembro 21

de quando em vez a vida maltrata o corpo
e tiramos versos torpes de notícias de jornais.



Anbela na voz de Renato Braz.

sexta-feira, dezembro 11

Elizabeth

rainha do mundo lírico dos que amam como eu.
dona do mar de poesias,
copa repleta das verdes folhas do viver.

|todas carinhosamente cercadas pela alva tez.
a fina flor de sal desse doce mar que me acaricia.|

sábado, dezembro 5

aladas

Esqueça a crítica ferrenha aos Estados Unidos. Apague, por alguns minutos, da sua mente o movimento Dogma e sua "naturalidade". Lars Von Trier deixou tudo isso de lado para fazer seu mais novo filme, Anticristo, um terror psicológico, marcado por todos os pesadelos que teve durante os dois anos que passou em depressão.

Apesar de o diretor deixar de lado suas abordagens políticas, a ironia é a mesma de sempre: a mais cruel e refinada, com direito a cenas de mutilação genital, sexo explícito e questão “Deus realmente existe?”. E é justamente munido desse sarcasmo, que von Trier apresentou o filme nas coletivas em Cannes, auto-intitulado "o melhor diretor do mundo".

Diante das insistências para que explicasse o filme, foi vago nas respostas e soltou farpas como "eu não me preocupo com a audiência quando faço um filme" ou "foi Deus que me fez escolher essa história e realizar esse filme agora", além de elegê-lo o mais importante da sua carreira. Não é de se espantar, afinal Anticristo nasceu de todos os demônios que ele enfrentou nos anos de seu terror psicológico. O caos reina na história vivida pelos excelentes Charlotte Gainsbourg, premiada com a Palma de Ouro, e William Dafoe.

Para termos a dimensão do significado do filme na vida do diretor, Charlotte disse em entrevista à Folha de S.Paulo que as maiores dificuldades das filmagens foram os constantes ataques de pânico que ele sofria em algumas cenas. “Sabíamos que podia deixar o set a qualquer momento”, revelou.

A natureza demoníaca e o animalesco

Como é prática constante, o cineasta dinamarquês dividiu seu filme em capítulos – “Luto", "Dor (Caos Reina)", "Desespero (Genocídio)" e "Os Três Mendigos", além de trazer um prólogo e um epílogo – para contar a história de um casal (os nomes não são citados em nenhum momento) que se refugia numa floresta isolada, ironicamente chamada de Jardim do Éden, após a morte de seu filho.

Ela, uma escritora, totalmente entregue à dor da perda, ele, um terapeuta, que usa a psicologia cognitiva (abordada da maneira mais irônica a esse tipo de tratamento) para ajudar a esposa. Já envoltos na vastidão da natureza, o vegetal, o animal e, principalmente, os instintos humanos se misturam numa saga bíblica que mexe com a moral e os valores dos espectadores. Von Trier tira de Charlotte uma mulher em seu estado mais frágil e faz um retrato visceral, que de tão animalesco soa pornográfico.

A premissa é "e se a natureza fosse criada pelo anticristo?". Vale lembrar, aqui, que Lars von Trier é filho de pais ateus e tem, desde os 12 anos de idade, um exemplar de O Anticristo, manifesto anticristianismo de Friedrich Nietzsche, em sua cabeceira. Mesmo com esse histórico, o cineasta, implicante como é, se converteu ao Cristianismo em certo momento da vida, porém hoje perdeu novamente a fé na religião – embora sua nova obra seja toda permeada por símbolos e citações místicas.


A plástica do filme

Diferente da proposta de seus outros filmes, com câmeras no ombro e imagem o mais natural possível (herança do movimento Dogma), aqui, em Anticristo, ele investe na estética. A bela fotografia é assinada por Antony Dod Mantle (o mesmo de Quem Quer Ser um Milionário) e, desde a poética abertura, rodada em preto e branco e em câmera lenta, já impressiona. Nela, um casal faz sexo, de forma idílica e intensa, no momento em que seu filho pequeno sai do berço, se aproxima da janela e dali cai.

A música de fundo, neste prólogo, compõe a ironia: Lascia Ch’io Pianga, de Händel, com interpretação da soprano norueguesa Tuva Semmingsen, fecha uma das cenas mais belas dos últimos tempos.

Ironia ou homenagem?

Encerrado o filme, uma tela negra. Pouco mais de dois segundos, o espectador se depara com a frase: "Dedicado a Andrei Tarkovski (1932 a 1986)”. Depois do bombardeio de metáforas antisemitas, a impressão que dá é de um sarcasmo despudorado, já que o famoso cineasta russo tem na sua cinematografia um forte compromisso com o sagrado.

No entanto, Von Trier justificou e esclareceu essa dúvida na época do Festival de Cannes. "Para mim ele era uma espécie de deus. Me sinto ligado a ele, assim como a Bergman", comentou. “Meu trabalho e o dele têm uma relação religiosa. A primeira vez que assisti a um filme do Tarkovski, The Mirror (O Espelho), entrei em êxtase. Dedicaria todos os meus filmes a ele”, revelou.

Se entregue ao pesadelo

Lars Von Trier sabia o que fazia quando não quis explicar seu filme (e na verdade, que obra deve ser explicada?). E assim deve fazer o seu espectador. Anticristo não é um filme para ser explicado. Deve ser enfrentado (com muita coragem), sentido. Diante de todos aqueles símbolos e referências, ele só pede que você mergulhe nos seus pesadelos mais tenebrosos e busque algum significado, o seu significado.

não, a tristeza é, como na vida, mais tédio que pranto. tudo o que lá não está é excesso.

quinta-feira, novembro 19

questões ao dr. gato de alice I

dr. gato de alice: alô?
você: olá! dr. gato? como vai?
dr. gato de alice: hum...
você: estou com um sério problema, senhor gato.
dr. gato de alice: hum...
você: eu amo ler e reler o livro de um autor. só que acho esse escritor um picareta, um canalha ingrato que cuspiu no prato em que comeu. um imbecil que não soube ser grato ao ombro amigo. mas, não adianta, dr. gato, sempre quando estou em frente à minha estante... passo o dedo em todos os livros... e sempre volto ao mesmo conto, o desse filho de uma puta.
dr. gato de alice: hum...
você: dr., o que é que está acontecendo comigo dr.?
dr. gato de alice: bem. você só está com um certo sentimento de autopiedade, coisa pouca. dê uma guglada... lá explica tudo. num esquenta não, faça o velho e bom exercício: compre um vestidinho novo, uma sandalhinha bacana, um tijolinho de ganja e combine com os seus amiguinhos "descolados" uma viagem a milho verde, o último point do momento... dos alternativos. como sempre... faça isso uma vez por mês (duas, caso o papai deposite a grana até o dia 20). sempre funciona.
você: dr., o senhor é o máximo!
dr. gato de alice: ok. muito obrigado por sua participação, como você já sabe, a nossa conversa está sendo gravada, anote, por favor, o número de seu protocolo.

sexta-feira, novembro 13

o problema era o estranho hábito de colecionar joaninhas.



Enquanto você na arquibancada eu na geral
Enquanto eu além de tudo você afinal
Enquanto eu rondó você madrigal...
Enquanto eu paro e penso você avança o sinal
Enquanto você carta marcada eu canastra real
Enquanto eu lugar-comum você especial
Enquanto eu na cozinha você no quintal...

Você dois pra lá, e eu dois pra cá
É a dança da nossa paixão
Dois pra lá, e eu dois pra cá
É a dança da nossa paixão

Enquanto você kamikase eu general
Enquanto eu paquetá você cabo canaveral
Enquanto eu média luz você carnaval...
Enquanto você no olimpo ai de mim mortal
Enquanto você brisa eu vendaval
Enquanto você Roberto eu Hermeto Pascoal

Você dois pra lá, e eu dois pra cá
É a dança da nossa paixão
Dois pra lá, e eu dois pra cá
É a dança da nossa paixão

Enquanto você monumento eu pedra de sal
Enquanto você na folia eu no funeral
Enquanto eu matriz você filial...
Enquanto você Branca de Neve eu Lobo Mau
Enquanto eu papai-e-mamãe você sexo oral
Enquanto eu na canção você no parque industrial

Você dois pra lá, e eu dois pra cá
É a dança da nossa paixão
Dois pra lá, e eu dois pra cá
É a dança da nossa paixão

sexta-feira, novembro 6

oito horas e tal da manhã.
acordado desde às três. sete cigarros.
os algarismos me mostram que a manhã não está nada bem.

domingo, novembro 1

e, na verdade, estar aqui e ser assim, afeito ao que é amargo e às promessas possíveis e ainda assim intangíveis de amor, é simplesmente a vontade de se estar à altura desse momento único, recortado no tempo, que chamam de vida.
fumo um cigarro e espero esta vontade passar.

quinta-feira, outubro 29

ainda restam em meus lábios vestígios que demonstram a capacidade de sua ternura. é o que resta. esta angústia lenta que alenta o que queima num canto escuro do quarto. tudo já foi.

terça-feira, outubro 27

Tenho lido os 100 Sonetos de Amor, de Neruda. Leitura muito agradável e muito tenho me surpreendido do tanto de Vinícius que encontro em Neruda. Não sei se aquele está realmente neste, ou se simplesmente suponho e desejo essa existência literária. De certo há que essa vontade de voltar aos contos do Pablão, que nos deixou naquele ano de 1973, nasceu da visita ao musical “Tom e Vinícius”, direção de Daniel Herz, que esteve aqui de passagem por Belo Horizonte. Aliás, permitam-me... a peça nada mais faz que ficar no Vinícius de sempre. Uma pena, pois a impressão que tenho é que nada mais será feito com o intuito desvelar o verdadeiro Poetinha depois do Documentário Vinícius, do Miguel Faria Jr.. Mas vamos às vacas frias. O que eu queria mesmo com esse post era apenas deixar aqui para vocês duas das coisas que mais me tocam desses dois escritores.

Soneto de Vinicius Dedicado a Neruda.
05 Soneto de Vinicius Dedicado a Neruda.wma

Quantos caminhos não fizemos juntos
Neruda, meu irmão, meu companheiro...
Mas este encontro súbito, entre muitos
Não foi ele o mais belo e verdadeiro?

Canto maior, canto menor - dois cantos
Fazem-se agora ouvir sob o cruzeiro
E em seu recesso as cóleras e os prantos
Do homem chileno e do homem brasileiro

E o seu amor - o amor que hoje encontramos...
Por isso, ao se tocarem nossos ramos
Celebro-te ainda além, cantor geral

Porque como eu, bicho pesado, voas
Mas mais alto e melhor do céu entoas
Teu furioso canto material!

Vinicius de Moraes



Soneto I **

Matilde, nombre de planta o piedra o vino,
de lo que nace de la tierra y dura,
palabra en cuyo crecimiento amanece,
en cuyo estío estalla la luz de los limones.
En ese nombre corren navíos de madera
rodeados por enjambres de fuego azul marino,
y esas letras son el agua de un río
que desemboca en mi corazón calcinado.
Oh nombre descubierto bajo una enredadera
como la puerta de un túnel desconocido
que comunica con la fragancia del mundo!
Oh invádeme con tu boca abrasadora,
indágame, si quieres, con tus ojos nocturnos,
pero en tu nombre déjame navegar y dormir.

*Vinicius de Moraes en São Paolo 'Homenagem aos três Pablos'
**100 sonetos de amor, pablo neruda

segunda-feira, outubro 12

sim
vida
quebra-cabeça sem luz
flores rubras pelo chão do quarto
giram o sol que me conduz
uma festa matutina
panos de purpurinas
chuva de laços coloridos
ladeiam a cama forrada de sonhos
sonhos inesatos
insensatos

quarta-feira, setembro 16

vida a dois

eu: ei delegado
tudo bem?

Helbert: caminhando...
caminhando...
to tendo muita discussão la em casa

eu: é
mas a gente vai levando

Helbert: pois eh!
Maristella não entende que nao deve comer o edredom
ki os ralos não foram feitos para servirem de brinquedos
ki o sofá foi feito para gente de duas patas
ki ela não pode dormir no quarto

eu: foda

Helbert: tá difícil viu
acho q vou deportá-la
hahahahahahha

eu: escreve um post para ela

Helbert: se bobear ela como o papel.

sexta-feira, setembro 4

O dia amanheceu claro. O céu borrado de azul parecia denunciar um motim orquestrado pelo verão que teimava não ceder lugar às folhas secas do outono. O cheiro de café fresco e quente aquecia e estimulava o olfato, dominando o perfume de eucalipto ainda molhado pela chuva que venceu a madrugada e que, de joelhos, pediu bênçãos ao primeiro raiar daquela manhã. Sim. Eram 6 horas da manhã. Lembro porque, no rádio de válvulas, o terço era cantado. Cantado por pessoas simples, de olhar temente e mãos marcadas por vincos que se confundiam com as valas onde semeavam cafés. Sim, eu vi. Eu estava lá, sentado à sala, em frente à porta aberta, ao azul no céu e, no mesmo instante, sentia as mãos das donas daquelas vozes femininas que entoavam o padre nosso e uma salve rainha me acariciando a fronte, como quem diz: “siga. A vida é feita da falta também. E nem por isso ela deixa de ter cheiro de café fresco, passado na hora.”