sexta-feira, outubro 5

noites brancas II

domingo

o rei acordou contente e suspendeu a cobrança dos impostos.

segunda-feira

Mais um dia de suspensão.

Teve festa. Durou a noite toda.

terça-feira

Ressaca do rei.

Dor de cabeça insana.

É ordenada a retomada das cobranças dos impostos.

quarta-feira

O povo, deprimidos servos, vai ter com o rei.


Reivindicação:

todos querem uma possível nova trégua.

Argumento:

a decisão real foi tomada contra o povo e provocada pela ressaca do rei.


Revolta

Quinta

Morre o dono da vinícola.

Assassinato.

Sexta-feira

Morre a rainha.

Suicídio.

Sábado

Dia riscado do calendário.

noites brancas I


era imenso e belo,
cheio de flores e meninos;
eu era menino,
mas, sem sorriso de menino.

acontece que, cresci e pensei,
arrependo-me ainda disso.
quando era menino, crescer
significava infinitas possibilidades,
hoje uma impossibilidade
já não deixa valer a pena, voltar.

um dia eu tive um martelo e pregos,
bati prego e dedo no seu caule,
a dor que senti foi a do dedo,
mas, fez-me pensar na sua dor.
eu só tinha sete anos e,
chorando com o dedo torno,
pedi desculpas e lhe abracei,
mentira, talvez o fizesse hoje.
e se alguém visse?

peço desculpas de longe,
naquele tempo nem isso fiz.
eu era inocente demais para ver culpa,
agora, sou culpado demais para lhe abraçar.

você já não é tão imenso, continua belo, eu não sou e não existe, menino menino sem o seu fruto, a doçura de menino vem de ti.

sexta-feira, setembro 28

Era o mar. De uma buniteza tão grande de se cegar os olhos.

Mas daquilo só tinha os beliscos das ondas que |às vezes| causavam pequenos choques nos pés descalços na areia.

era vida.

sábado, setembro 22

vida








Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã indispensável: um quintal de terra verde onde corra, quem sabe, um córrego pensativo; e nessa terra, um teto simples onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu pai apaixonado - a insensatez de um coração constantemente apaixonado.E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com os frutos da minha mais dolorosa poesia.Da mesma forma que eu, muitas noite, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua.E porque vivemos tanto tempo juntos e tanto tempo separados, e o que o convívio criou nunca a ausência pôde destruir.Assim como eu creio em ti porque nasceste do amor e cresceste no âmago de mim como uma árvore dentro de outra, e te alimentaste de minhas vísceras, e ao te fazeres homem rompeste meu alburno e estiraste os braços para um futuro em que acreditei acima de tudo.E sendo que reconheço nos teus pés os pés do menino que eu fui um dia, em frente ao mar; e na aspereza de tuas plantas as grandes pedras que grimpei e os altos troncos que subi; em tuas palmas as queimaduras do Infinito que procurei como um louco tocar.Porque tua barba vem da minha barba, e o teu sexo do meu sexo, e há em ti a semente da morte criada por minha vida.E minha vida, mais que ser um templo, é uma caverna interminável, em cujo recesso esconde-se um tesouro que me foi legado por meu pai, mas cujo esconderijo eu nunca encontrei, e cuja descoberta ora te peço.Como as amplas estradas da mocidade se transformaram nestas estreitas veredas da madureza, e o Sol que se põe atrás de mim alonga a minha sombra como uma seta em direção ao tenebroso Norte.E a Morte me espera em algum lugar oculta, e eu não quero ter medo de ir ao seu inesperado encontro.Por isso que eu chorei tantas lágrimas para que não precisasse chorar, sem saber que criava um mar de pranto em cujos vórtices te haverias também de perder.E amordacei minha boca para que não gritasses e ceguei meus olhos para que não visses; e quanto mais amordaçado, mais gritavas; e quanto mais cego, mais vias.Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei.E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar:
Assim é o canto que te quero cantar, Pedro meu filho...
Vinicius De Moraes - Pedro, Meu Filho...
Ó pedaço de mim
ó metade afastada de mim
Leva o teu olhar, que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento, é pior do que se entrevar
Ó pedaço de mim, ó metade exilada de mim
Leva os teus sinais, que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais
Ó pedaço de mim, ó metade arrancada de mim
Leva o vulto teu, que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu
Ó pedaço de mim, ó metade amputada de mim
Leva o que há de ti, que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada no membro que já perdi
Ó pedaço de mim, ó metade adorada de mim
Lava os olhos meus, que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo a mortalha do amor, adeus.


pedaço de mim. chico buarque

segunda-feira, setembro 17


Não é meu
...
Na mitologia clássica, tem uma historinha: a deusa Hera, manda os Titãs matarem Dionísio, filho bastardo do seu marido Zeus, e quando este chega para tentar salvar o que restou do seu filho, encontra apenas as cinzas titânicas e um restinho de vida (afinal Dioniso também era deus, não morria), então Zeus umedece as cinzas titânicas e monta bonequinhos com a chama divina dentro: eis uma lenda sobre o nascimento do Homem, um punhado de cinzas, mas com sua parte divina.
Quem te fala, agora, é uma pesquisadora do Rosa, aquele que escolheu um processo constante: ele sempre nos coloca no pior cenário possível, de violência, de miséria de falta de oportunidades, ele nos coloca nas cinzas, mas sempre alguma coisa acontece e a chama divina dentro deles aparece: surge uma luzinha qualquer. Às vezes, sozinha, ela ilumina bastante, mas quando juntas, fazem um grande clarão, como quando todo mundo leva o Sorôco para "a casa dele, de verdade", e aí fazem uma comunidade, com suas cinzas e miserabilidades juntas e assim, claro, recriam a luz porque cada luzinha, junta, transforma-se em uma Luz e ilumina mais...
Como acontece comigo e com você, que temos, sim, nossas luzinhas fracas, mas se estamos juntos, podemos iluminar o mundo, sempre acreditei. E tem o Manuel Bandeira - meu querido - e o poema que não me sai da cabeça:

"O impossível carinho”

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

é da menina que distribui rosas.

quinta-feira, setembro 13


quarta-feira, agosto 29

E morre lentamente e bem decrepitamente quem não existe. E fazer o que. Se não há saída mesmo. Se as paredes estão erguidas e os cantos já não são ouvidos mais? Chorar não vai fazer amenizar a dor, talvez traga mais rancor para um peito já catolaico. Mas o amanhã vai nascer impunemente e nem vai querer saber se a noite foi escura e fria. No fundo é tudo assim mesmo brigamos porque simplesmente o fazemos e o nada mais é distante tanto quando a respiração que não vejo mais por conta dos cloridratos.

Hoje me acompanham duas barrinhas de cereais. Ah! Se meus problemas de vida fossem apenas os cereais. Mas não, os meus são apenas os rios que correm entre estas palavras de desvãos enluarados.

terça-feira, agosto 28

Edgar vai ter um filho.
Como pode? Não o conheço e estou tocado por ele e pela criança que virá lá da fronteira, como um Peri. É o mundo ficando mais leve, é o machado lapidando a dureza das gentes.

Que venha seu rebento, Edgar.

Que venha dissidente como o pai.

domingo, agosto 26

no vale belo, esquecido
se vai um flautista distraído,
o flautista também é surdo
e vaga sem se dar conta
ue assopra um simples canudo.
sem furo, música ou ponta...

sexta-feira, agosto 17

Olhe 
Não venha me mostrar o que você não vê 
Não venha me provar o que você não crê 
Não tente se enganar 
Pense 
Ninguém pode se dar o que só você tem 
Ninguém vai te dizer pra onde vai ou de onde vem 
A estrada é pra caminhar 
Não perca o resto do tempo que ainda te resta 
Não perca tempo pensando que a vida não presta 
Certas canções duram pouco, outras são eternas 
Por que carros e aviões, se tens sonhos e pernas 
Lembre 
Que sua consciência é o seu grande farol 
Há meses que fazem chuva, semanas que fazem sol 
E dias em que tanto faz 
Faça 
Você faz seu enredo, você é seu Jesus 
Feche os olhos do medo e abra o templo da luz 
E tente um minuto de paz 

Sonhos e Pernas de Vander Lee

segunda-feira, agosto 6

como todas as coisas da vida e como Álvaro de Campos, não sou nada, absolutamente nada, nem existo, nem minto em mim a coexistência das sensações do mundo.

mexendo os ombros, balançando a cabeça

o dia amanheceu especialmente lindo naquele dia. os pássaros cantavam. o som das folhas secas rolando pelo chão de cimento envolvidas pelo vento de agosto invadia o quarto e completavam a melodia que joão assoviava enquanto arrumava os materiais escolares na capanga velha e surrada. foi quando a mãe entrou no quarto e, de olhos arregalados, deu bom dia ao menino e perguntou se estava tudo bem. sim. respondeu ele, com um sorriso – o que era comum – nos lábios. sapatos aos pés, cabelos molhados e espichados e uniforme bem assentado no corpo franzino, jota, como era chamado pelos amigos do futebol, se prostrou frente a porta do carro, parecia ansioso para ver os colegas da escola. e está não é só minha, a mãe também nutri está dúvida. aliás, respostas é o que ela menos tem para dar nesta manhã sobre o comportamento do garoto. como explicar e relacionar a destreza para levantar da cama e se arrumar prontamente, num segundo, para ir à escola, tratando de tomar banho, de escovar os dentes, de pentear os cabelos, de se vestir, de arrumar os materiais escolares e de tomar café, tudo com uma tranqüilidade oriental, ao joão?, não. isso não era o forte daquele garoto. talvez ele tenha chegado a madureza de seus 11 anos, avaliou o pai, com ar grave no rosto. bem, fato é que o garoto esta lá, esperando na porta do carro, mexendo os ombros, chutando o vento e balançando a cabeça. se maduro ou não, ele estava pronto mais um dia de aula, o que, cá pra nós, era um milagre, pois o moleque não era lá muito fã dos bancos escolares, vai ver estava se enrabichando pro lado de alguma garotinha na sala.

ao ver o beijo dos pais se adiantou para dentro do carro gritando um “tchau mãe” e se abancou na poltrona de trás abrindo a janela para sentir a brisa que batia em seu rosto e jogava seus cabelos para trás. parecia particularmente livre e feliz sentindo o vento e olhando as casas que compunham a paisagem móvel do caminho até à escola. as casas eram as mesmas, os postes eram os mesmos, os jardins eram os mesmos, até os cachorros que escapavam das bolinhas dos cuspis que voavam do carro eram os mesmos, mas a pintura em seus olhos era diferente era outra naquela manhã. o pai tentava contatos em vão, jota estava em outro mundo e conversava consigo mesmo sobre coisas que não escuto. a única coisa que consigo discernir são os movimentos da cabeça rumo a um e outro ombro. o que será que esse menino ouve? perguntava o pai a si e não encontrava resposta. enquanto isso o garoto continuava em seu mundo, seguindo seu caminho físico de toda manhã e ouvindo frases, creio, de incentivo e, talvez, até aplausos, vai saber?.

fila dupla, corre-corre e ele mal se despede do pai já corre para dentro da sala de aula. está só no local, ainda é cedo. aos poucos as cadeiras vão tomando vida e o silêncio é silenciado pelo burburinho que aumenta a cada instante até a chegada da professora.

Quando história quiser sair mais um pouquinho eu deixo,

sempre deixarei. Ela é que se esconde num sei onde.



quinta-feira, julho 26

domingo, julho 22

§ outro dia uma amiga me perguntou se era o fim ou não deste blog. bem, nem me lembro direito da resposta que dei a ela, pois quem sou eu para dar a certeza sobre o destino das coisas tangíveis? ninguém, nada. ainda mais a um pedaço virtual onde muitos depositam coisas intangíveis e - muitas das vezes - infinitamente lindas e de grande utilidade, como estudos e trechos de livros. eu? apenas me estou aqui e agora. como me prostrei aqui nesta cadeira para ler os imeios e alguns sítios, que me tocam, e uns autores, que me dizem, e uns (poucos) blogs (claro, apenas aqueles que realmente não devem se acabar nunca, pois são bons. e aí agradeço à tecnologia que inventou isto aqui, permitindo que os como eu leiam lindas cartas e memórias - viu Camila, há este lado benéfico da coisa - que antes ficariam confinadas entre quatro bordas de papéis amareladas e, talvez, comidas por traças e mudas aos outros, como eu.) até que cheguei neste depósito de letras aqui. para tirar a poeira destes cantos aqui, resolvi postar algumas linhas, mas... postar o? não sei. é época de terras secas, caducas, apesar das constantes chuvas.

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§ para não deixar de todo certo o abandono disso aqui, ai segue uma entrevista que fiz com o MV Bill para revista Idéias. quem cedeu as fotos foi o Nino, produtor do Bill. apesar da correria para fazer o material e da dificuldade para falar com o homem, devido aos compromissos que ele teve naquela semana, consegui abrir e fechar a entrevista às 13horas de um domingo qualquer.

§Estamos juntos e misturados!


§ Edifício Maleta, centro de BH, 19h 30min de uma segunda-feira quer qual seja. O celular toca. Interrompe a trajetória do copo lagoinha. Digo um “alô”. Do outro lado linha, a jornalista Marcela Siqueira manda com a simpatia de sempre: “Cara, onde cê tá? amanhã cedo temos uma reunião de pauta lá no bairro Sion. Às oito e meia passo pra te pegar, ok?”. Respondo um “sem problemas” e nos despedimos. Antes de pousar na mesa do boteco, o copo suado fica livre para atingir o seu objetivo e matar a minha cede.

§ Umas 15horas separaram aquele momento no bar da sala de reuniões, onde um nome quebra o frio condicionado e o silêncio angustiante do local e encontra aprovação no sorriso da Marcela e nos olhos contentes da publicitária Angela Corinto. Tínhamos acabado de encontrar quem seria o entrevistado do primeiro número da Revista Idéas. O tal nome? Bill. Então convidamos MV Bill (Mensageiro da Verdade) para o primeiro bate-papo da publicação.

§ O cara é uma verdadeira metralhadora giratória de idéias que só dá pausa para recarregar o cartucho e focar outro alvo. Estar na mira dele, no entanto, é privilégio para poucos, e desejos de muitos. Também pudera. Bill, que nasceu na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, é reverenciado por gente do calibre do cineasta e escritor Joel Zito de Araújo, autor de “Filhas do Vento” e “A Negação do Brasil”. Ele está no time dos mais brilhantes pensadores das periferias do País. Seus trabalhos, como “Falcão – Meninos do Tráfico”, “Falcão - O Bagulho é Doido” e “Cabeça de Porco”, tiram das sombras e lançam ao debate a realidade dos que estão à margem da sociedade, nas vilas e nos morros. Mostram uma verdade que a maioria dos brasileiros não conhece ou finge desconhecer.

§ O trabalho do homem é chapa quente e virou referência internacional. Instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Unicef já reconheceram a importância das iniciativas de Bill. Recentemente, “Falcão – Meninos do Tráfico”, foi premiado na Espanha, com o Troféu “Rei da Espanha”, na categoria TV. Só para se ter uma idéia, esse prêmio é um dos maiores dentro do jornalismo internacional.

§ Foi com a música, com o rap, que Bill deu os primeiros passos em seu trabalho. Hoje, por meio da Cufa - Central única das Favelas - ele e sua equipe atacam em várias frentes: esportes, audiovisual e até artes cênicas. “Costumo dizer que somos um hospício. Um bando de loucos sem camisa de força”, definiu ele em entrevista à revista Caros Amigos.

§ Humano que é, Bill também tem lá suas esquisitices. Prova disso é que tem muita gente por aí pagando caro pra saber seu verdadeiro nome, segredo que ele não revela. É conhecido somente como MV Bill ou pelo pseudônimo, Alex Pereira Barbosa. Vá entender!

§ Bem, como já deu para perceber, os cartuchos de Bill são intermináveis e a agenda está sempre lotada. Portanto, pegar o homem para uma conversa foi uma verdadeira batalha, que até a última hora do fechamento da revista não havia terminado. E, aos 45 minutos do segundo tempo, em pleno domingão na hora do almoço, conseguimos “bater uma bola” rápida com o ele, no intervalo entre um compromisso e outro. O bate-papo foi curto, mas dá pra ter uma noção das idéias de um dos ícones do pensamento da periferia brasileira.

§ Revista Idéias: Alô? Bill?

§ MV Bill:
Sim. Ô mano, desculpa aí pela demora em atender vocês. É que estava numa correria só.


§ RI:
Tem nada não. Estávamos na sua cola desde o início da semana passada. Podemos começar?

§ MB:
Manda aí.

§
RI:
Bill fala um pouco sobre sua infância?

§ MB: Foi uma infância padrão. Estudar até onde a vida permitia. Conciliar “trampo” e estudo vislumbrando um mundo diferente do meu, coisa que nunca ia acontecer.

§ RI: Você nasceu na Cidade de Deus, quando você tomou consciência de que era hora de mudar aquela realidade?

§ MB: Olha, tive essa consciência muito cedo, antes mesmo do hip hop. Mas só foi através dele que a coisa se deu, até mesmo no afinamento do discurso. O hip hop foi um divisor de águas.

§ RI: Você considera o hip hop um agente de transformação da realidade da periferia?

§ MB: No início, sim. Mas devido à complexidade das coisas, acho devemos usar outros tipos de linguagens, como o vídeo e a literatura, algo que é até estranho para as pessosa da comunidade.

§ RI: Qual a maior carência das periferias?
§ MB: A periferia não tem apenas uma. Ela é um bolsão de carência.

§ RI: O Estado ainda é muito distante dos morros?

§ MB: Sim. No Falcão mostramos que essa distância causa uma visão errada da periferia. O objetivo da Cufa (Central Única das Favelas) é justamente agir para intermediar a relação entre o poder público e a favela. A violência que vivemos, com certeza, é reflexo da dessa ausência. O que queremos mostrar é que o importante não é apontar os culpados, mas sim, as soluções.

§ RI: Polícia do exército nas ruas traz segurança, Bill?
§ MB: Cara, acho que trazer, traz, para toda a sociedade. Não importa se você está no asfalto ou na favela. Só que é uma segurança aparente, pois o Exército não vai ficar na rua o tempo todo, uma hora os caras vão sair. E aí? A solução para o problema é mudar a maneira de enxergar, de tratar o outro.

§ RI: Qual o papel do jovem para mudar esse contexto?

§ MB:Eles são a oportunidade de mudança disso tudo. Mas alienado do jeito que parte da juventude está, acho difícil que mude alguma coisa

§ RI: Tem algum novo projeto no saindo do forno?

§ MB: Eu e o Celso Athayde agora estamos trabalhando no “Falcão – Mulheres”. Como o “Falcão - Meninos do Tráfico”, também vai abordar os problemas que afetam os habitantes das periferias. Mas, agora, vamos focar nas Mulheres.



...


uma hora posto o resto do material. cof. cof. foi só para bater a poeira.

sexta-feira, julho 13

PRELÚDIO - No entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali e era assim que se movia. Era dentro disso que precisava mover-se sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo – e queria? Enumerava frases como é-assim-que-as-coisas-são ou que-se-há-de-fazer-que-se-há-de-fazer ou apenas mas-afinal-que-importa. E a cada dia ampliava-se aquele gosto de morangos mofando, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta.

Morangos Mofados (trecho), de Caio Fernando Abreu
Sem querer foi me dando um desespero
De te amar feito louco de corpo a dentro
Mendigando o teu beijo a todo momento
Fazendo de mim mesmo um só tormento
Como a lua que brilha no firmamento
Como o sol que aquece o meu caminho
Como a noite que chora do meu lamento
Sou mais um que desperta longe do ninho
Meu caminho e deserto e tenebroso
Meu cavalo alazão só me faz carinho
Quando eu durmo me perco no pensamento
Ele fica chorando um só tormento.



P. Pedra Azul

quinta-feira, julho 5

Aproveito a batida do cursor que finca e picareta a folha em branco e entro pela fresta do buraco ainda raso das sensações que me acompanham e me lanço em vácuos do papel em pranto. Me arrasto pelas fendas, abro espaço. Num espaço livre, liberto das amarras do real contemporâneo que do cotidiano vivo no emaranhado as tranças dos cadarços, me vou. Livro-me das cordas nos pés e agora eu me lanço em um mundo sem cadarço. O ar assopra a sola de meus pés, me acolhe e me leva nas mãos estendidas. Os lugares que visito me doem, me vagam, me chamam, me constroem, me desmontam, me desvelam e me fazem me, filho de dona Maria, livre das coisas coisas que todos sentem comummente tanto na noite e quanto no dia. Livre dos cadarços me solto, desprendem de mim rins, pulmões, intestinos, sem mais avisos me desatino na tentativa vã de recolhê-los cada um em minhas mãos. Caco por caco. Os instantes me somem. Os fragmentos são fremes sem fragrâncias flagrantes de um dia distante. O olhar oblíquo e a voz desjuntada formam um lindo casal que se vai ao desencontro natural pelas estradas. Livres. Sim. Livres de outras sensações ensaiadas se vão. Apenas se. O coração bate num ritmo azul, o tempo ganha uma velocidade quase imperceptível eu tenho em mim agora o tremor e não sei se vou conseguir tocar de novo nestas sensações, o fim da cava branca do papel é breve. Retorno. A folha agora sangra. Quero ir além e nas manchas rubras tropeço. Os sapatos estão em firmes laços em meus pés. Mas o corregozinho me perturba. Paro diante dele. O porquê?, não me pergunta. Não tenho certeza, nem a de não ter. Nada. O mesmo que me corrói e pára na garganta branca dona do cursor que sangra a chapa banca com marcas de cortes para faca da gráfica rápida ou não, pois me fiz livre das medidas do tempo.